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| Portugal mudou as regras. O fim da Manifestação de Interesse pode travar a nossa economia? Entenda o que está em causa. |
- Fim da Manifestação de Interesse: O Decreto-Lei n.º 37-A/2024 revogou os artigos 88.º e 89.º da Lei de Estrangeiros.
- Exigência de Visto Prévio: Imigrantes agora precisam de contrato de trabalho consularizado antes de entrar em Portugal.
- Impacto no PIB: A imigração contribuiu com um saldo positivo de 1.600 milhões de euros para a Segurança Social em 2022.
- Setores em Risco: Turismo, Agricultura e Construção Civil enfrentam escassez imediata de mão-de-obra.
Conteúdo deste Guia:
No dia 3 de junho de 2024, o Governo de Portugal anunciou uma mudança estrutural que encerrou um ciclo de quase duas décadas na política migratória do país. Ao revogar o mecanismo de Manifestação de Interesse, o Executivo de Luís Montenegro impôs a obrigatoriedade de um visto de trabalho prévio, obtido nos consulados de origem, para qualquer cidadão estrangeiro que pretenda exercer atividade profissional em território nacional.
Esta decisão não é apenas uma alteração administrativa; é um terramoto no mercado de trabalho português. Num país onde o inverno demográfico acentua a escassez de mão-de-obra, a transição para um modelo de "entrada controlada" levanta uma questão crítica: conseguirá a economia portuguesa sobreviver sem a flexibilidade que a Manifestação de Interesse proporcionava, ou estamos perante um travão brusco no crescimento do PIB?
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O Fim da Manifestação de Interesse: O Quem, O Quê e O Porquê
Até à entrada em vigor do novo Plano de Ação para as Migrações, os artigos 88.º e 89.º da Lei n.º 23/2007 permitiam que um imigrante entrasse em Portugal como turista, obtivesse um contrato de trabalho e regularizasse a sua situação através de uma Manifestação de Interesse junto da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo).
Segundo a análise do Portal Mundo Time, o "atrativo" português residia nesta facilidade de regularização a posteriori. Contudo, o Governo justifica a revogação com o colapso dos serviços públicos. Com mais de 400.000 processos pendentes herdados do antigo SEF, o sistema tornou-se incapaz de processar os pedidos, gerando situações de precariedade extrema e indignidade humana.
Quadro Comparativo: O Antes e o Depois da Lei
| Característica | Antigo Regime (Até Junho/2024) | Novo Regime (Atual) |
|---|---|---|
| Entrada em Portugal | Como turista ou sem visto específico. | Visto de trabalho ou procura de trabalho prévio. |
| Contrato de Trabalho | Podia ser assinado já em território nacional. | Deve ser apresentado no consulado de origem. |
| Regularização | Manifestação de Interesse (Art. 88/89). | Através de canais consulares regulares. |
Impacto Económico: A Dependência do Mercado de Trabalho
A imigração é, atualmente, o principal motor demográfico de Portugal. Dados do INE (Instituto Nacional de Estatística) e da Segurança Social revelam que os trabalhadores estrangeiros foram responsáveis por um saldo positivo recorde de 1.602,1 milhões de euros nas contas públicas em 2022.
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Setores sob Pressão Imediata
A análise de especialistas do setor hoteleiro indica que a "tolerância zero" às entradas informais poderá levar ao fecho de unidades durante a época alta por falta de pessoal. Os setores mais afetados são:
- Turismo e Restauração: Dependem de mão-de-obra sazonal e rápida.
- Agricultura (Alentejo e Oeste): Onde as campanhas de colheita exigem fluxos intensos de trabalhadores.
- Construção Civil: Atualmente com um défice estimado de 80.000 trabalhadores.
O Contraditório: Críticas e Riscos da Nova Política
Embora o Governo defenda que a medida traz "ordem e segurança", diversas associações de imigrantes e sindicatos alertam para os riscos colaterais. Na opinião de especialistas em direito migratório, o fim da manifestação de interesse não impedirá a chegada de imigrantes, mas poderá empurrar para a clandestinidade.
"O fim da manifestação de interesse sem o reforço imediato da rede consular é uma receita para o aumento do trabalho ilegal e da exploração por redes de tráfico humano." — Análise editorial Portal Mundo Time.
Organizações como o Conselho Europeu para os Refugiados e Exilados apontam que a burocracia consular portuguesa é historicamente lenta. Se um visto demora seis meses a ser processado, as empresas portuguesas — muitas vezes necessitando de soluções urgentes para contratos de prestação de serviços ou património — perdem competitividade internacional.
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FAQ - Perguntas Frequentes
1. Quem já tinha Manifestação de Interesse submetida será afetado?
Não. O Governo garantiu que todos os processos submetidos até à data da mudança da lei serão processados pela AIMA segundo as regras antigas.
2. É possível converter visto de turista em trabalho dentro de Portugal?
Com a nova lei, essa via foi encerrada. O cidadão deve regressar ao país de origem ou a um país onde tenha residência legal para solicitar o visto adequado.
3. Quais são as alternativas atuais?
O Visto de Procura de Trabalho (válido por 120 dias, prorrogável por mais 60) continua a ser a principal via legal para quem deseja procurar emprego em Portugal.
Conclusão: O Desafio da Equação Migratória
A nova política migratória de Portugal marca um esforço para alinhar o país com as diretrizes da União Europeia e para estancar a degradação dos serviços de atendimento. Contudo, o sucesso desta medida depende exclusivamente da capacidade dos consulados em responder à procura e da agilidade da AIMA em resolver o passivo de processos.
O mercado de trabalho português, sedento por mão-de-obra, enfrenta agora um período de ajustamento que poderá ditar o ritmo de crescimento económico dos próximos anos. O tema continuará em debate, especialmente à medida que os primeiros dados do impacto no setor agrícola e turístico forem publicados no próximo semestre.
