Na visita a uma empresa afetada pela tempestade Kristin, o proprietário alertou Ventura para a falta de mão de obra estrangeira

Ana Fernandes
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Empresário em discussão e mostrando ao André ventura sobre agricultura ou horticultura em ambiente de estufa com estrutura  danificadas de vidro e plantas
Sem imigrantes, eu fechava": A realidade que chocou a política no Oeste.

Choque de Realidade nas Estufas: O "Não" à Retórica e o Grito por Imigrantes

André Ventura visitou a Hortomaria para ver os danos da tempestade Kristin, mas encontrou um empresário focado noutra crise: a falta de braços para trabalhar. Uma análise profunda sobre o paradoxo entre a política migratória e a sobrevivência económica.


Foi entre ferros retorcidos e plásticos rasgados pela tempestade Kristin que se deu um dos confrontos ideológicos mais pragmáticos dos últimos tempos. André Ventura, líder do Chega, deslocou-se esta terça-feira a Torres Vedras com a intenção de capitalizar politicamente sobre os estragos climáticos e a resposta do Estado. Contudo, o que encontrou na empresa Hortomaria não foi apenas um cenário de destruição física, mas um aviso económico contundente que desafia frontalmente a narrativa do seu partido.

Leia também: Falta de mão de obra? Marcelo defende abertura de um canal de entrada de imigrantes.

Paulo Maria, proprietário da empresa e presidente da organização de produtores Carmo e Silvério, não usou meias palavras. Enquanto as câmaras focavam nos prejuízos estruturais — 90% dos quais cobertos pelo seguro —, o empresário focou na única variável que o dinheiro do seguro não compra: a força de trabalho. "Se hoje os trabalhadores estrangeiros fossem embora, eu fechava a empresa imediatamente", disparou, colocando a necessidade de imigração no centro da sobrevivência do setor primário português.

Neste artigo vai descobrir:

  • O detalhe do diálogo entre o empresário agrícola e o líder da oposição.
  • Dados reais sobre o peso dos imigrantes na agricultura portuguesa.
  • A análise exclusiva do Portal Mundo Time sobre o custo dos alimentos sem mão de obra estrangeira.
  • O contraditório: Como as políticas propostas pelo Chega colidem com a realidade no terreno.

O Cenário: Tempestade Kristin e a "Tempestade" Laboral

A visita inseria-se numa campanha de "modos mais contidos" por parte de Ventura, visando mostrar proximidade com as vítimas das intempéries. A tempestade Kristin deixou um rasto de destruição na zona Oeste, afetando gravemente as estufas, essenciais para a produção hortícola que alimenta grande parte do país.

Contudo, a agenda do líder partidário foi rapidamente suplantada pela agenda do real. Paulo Maria explicou que espera resolver os problemas físicos das estufas em dois meses. O capital existe, a vontade existe. O que escasseia é a certeza de que haverá quem colha os produtos.

"Não desvalorizando os prejuízos... o Estado tem de permitir localizá-lo [os imigrantes]." — Paulo Maria, Proprietário da Hortomaria.

Este alerta surge num momento crítico. Com o fim das Manifestações de Interesse e o endurecimento das regras de entrada em Portugal, muitos empresários agrícolas temem um "estrangulamento" da sua capacidade produtiva por via administrativa.

Também temos: Em Portugal, imigrantes contribuem cinco vezes mais para o Estado do que recebem em apoios.

Factos vs. Narrativa: A Dependência da Mão de Obra Estrangeira

Para separar a opinião política da realidade económica, é fundamental olhar para os números. O setor agrícola em Portugal, especialmente no Alentejo e na região Oeste, sofre de um envelhecimento crónico da população ativa nacional e de um êxodo rural contínuo.

Segundo dados cruzados do INE (Instituto Nacional de Estatística) e observatórios do setor, a dependência de mão de obra imigrante (nomeadamente do Sudoeste Asiático, Brasil e PALOP) em certas explorações intensivas supera os 60%.

Tabela 1: Realidade do Setor Agrícola vs. Discurso Político
Fator Realidade no Terreno (Empresários) Discurso Restritivo (Chega)
Disponibilidade de Mão de Obra Inexistente entre nacionais. Dependência total de estrangeiros para colheitas. Defesa de prioridade nacional e quotas estritas de imigração.
Regularização Necessidade urgente de agilizar processos (AIMA) para evitar ilegalidade. Crítica à "porta aberta" e burocracia focada no controlo, não na facilitação.
Impacto no Preço Sem imigrantes, a produção cai e os preços disparam para o consumidor. Foco na segurança social e cultural, secundarizando o impacto inflacionário imediato.

Análise Portal Mundo Time: O Risco do "Colapso Silencioso"

No Portal Mundo Time, analisamos este episódio não como um caso isolado, mas como um sintoma de um problema estrutural maior. O confronto na Hortomaria expõe o que chamamos de "Colapso Silencioso".

Enquanto o país discute tempestades visíveis como a Kristin, que derrubam ferros e rasgam plásticos, existe uma tempestade demográfica. A agricultura intensiva, que permite que Portugal exporte milhões em frutas e legumes e mantenha os preços internos controlados, assenta num modelo de baixos salários que, regra geral, apenas a população imigrante aceita numa fase inicial de integração.

Por que é que isto importa para o seu bolso?
Se a "solução" política for fechar as portas à imigração sem uma reestruturação total da economia agrária (que levaria anos e exigiria subsídios massivos), o resultado imediato será a escassez de produtos frescos nas prateleiras e um aumento brutal dos preços. O alerta de Paulo Maria não é ideológico; é matemático.

Leia mais: Seguro lidera sondagens e surge como travão à extrema-direita na presidencial.

O Contraditório e o Contexto Político

É necessário, contudo, dar espaço à visão política defendida por André Ventura e pelo Chega, para compreender a tensão do momento. O partido argumenta que não é contra a imigração per se, mas contra a imigração desregulada.

A tese central do partido é que a entrada massiva de mão de obra não qualificada mantém os salários baixos artificialmente, desincentivando a modernização tecnológica das empresas e a atração de trabalhadores nacionais. Ventura tem defendido que a agricultura deve evoluir para modelos de maior valor acrescentado, onde seja possível pagar salários dignos a portugueses.

No entanto, a crítica dos especialistas do setor — e a realidade exposta pelo dono da Hortomaria — é que essa transição tecnológica não acontece do dia para a noite. As alfaces, os morangos e o tomate precisam de ser colhidos hoje. A tecnologia robótica para colheitas sensíveis ainda é proibitivamente cara ou inexistente para a maioria dos produtores.

Pontos Chave da Discussão:

  • O Seguro Agrícola: Cobre danos físicos, mas não compensa perdas de produtividade por falta de pessoal.
  • A Burocracia da AIMA: Atualmente, há milhares de processos pendentes, deixando trabalhadores e patrões num limbo jurídico perigoso.
  • O Futuro do Oeste: A região é um dos maiores "pomares" de Portugal. O seu colapso afetaria o PIB nacional.

Conclusão: Um Diálogo de Surdos ou o Início da Solução?

A visita de André Ventura à Hortomaria serviu, ironicamente, para destacar a falha nas soluções simplistas. O empresário Paulo Maria representa o setor real: pragmático, focado na produção e indiferente a guerras culturais, desde que as contas fechem ao fim do mês.

O tema continuará em debate aceso no Parlamento e na sociedade civil. Fica evidente que qualquer política migratória que ignore a dependência vital da agricultura portuguesa corre o risco de criar uma crise alimentar interna, muito mais devastadora que os ventos da tempestade Kristin.

Nota: As informações contidas neste artigo baseiam-se nos eventos reportados a [Inserir Data Atual] e dados públicos do INE e declarações oficiais. A situação política e meteorológica pode sofrer alterações.


Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é a Tempestade Kristin?
Foi uma depressão atmosférica que atingiu Portugal Continental, causando ventos fortes e chuva intensa, provocando danos significativos na agricultura, especialmente na região Oeste.

Qual foi a resposta do governo aos estragos?
O Ministério da Agricultura acionou mecanismos de apoio, mas muitos produtores dependem de seguros privados, que cobrem grande parte dos danos estruturais, mas não as perdas de colheita futura.

Porque é que os agricultores dizem que dependem dos imigrantes?
Devido à escassez de mão de obra nacional disposta a realizar trabalhos agrícolas exigentes e sazonais, e ao envelhecimento da população rural portuguesa.

Qual a sua opinião?

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Autor: Redação Portal Mundo Time | Especialistas em Economia e Política.

Fontes de Referência: INE, Reportagem SIC/Expresso (Eventos Hortomaria), Dados da Pordata sobre Migrações.

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