SNS em Colapso: A Privatização é o Único Remédio para a Saúde Pública?

Ana Fernandes
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Imagem do centro de atendimento do serviço SNS 24, destaque para o logo colorido e área de espera com pessoas, ambiente moderno e bem iluminado.
O SNS está a desmoronar — e o país pergunta-se: privatizar é a cura ou o fim da saúde pública?

O colapso silencioso do Serviço Nacional de Saúde português está a tornar-se impossível de ignorar. Médicos exaustos, filas intermináveis nas urgências e uma fuga crescente de profissionais para o setor privado ou para o estrangeiro. A pergunta que paira no ar é dura, mas inevitável: poderá o SNS sobreviver como o conhecemos — ou a privatização parcial é o único caminho?

Nos últimos anos, o debate sobre o futuro do SNS deixou de ser apenas técnico. Tornou-se emocional, humano e profundamente político. Milhares de famílias sentem diariamente as falhas do sistema — consultas adiadas, cirurgias canceladas e profissionais em burnout. É neste contexto que cresce a influência dos hospitais e clínicas privadas, que ganham terreno à medida que o serviço público se fragiliza.

Leia também: Marcelo Rebelo de Sousa: ‘Não há política de saúde que resista à pressão do SNS.

Leia também: Lisboa Inova com Endoscopia por Cápsula: Exame Sem Dor e Sem Tubos Chega aos Hospitais.

O SNS à Beira do Limite

O Serviço Nacional de Saúde, criado em 1979, foi um dos maiores símbolos da democracia portuguesa. O seu princípio era simples: garantir acesso à saúde para todos, independentemente da condição económica. Mas, passadas quatro décadas, o sistema enfrenta uma das maiores crises da sua história.

Segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 1,6 milhões de portugueses não têm médico de família atribuído. E as listas de espera para uma consulta de especialidade ultrapassam, em alguns casos, os 12 meses. O resultado é um ciclo de frustração e abandono.

Os profissionais estão a desistir

Entre 2020 e 2024, mais de 2.000 médicos deixaram o SNS, segundo números divulgados pela Ordem dos Médicos. Muitos migraram para o setor privado, onde encontram melhores condições salariais, horários previsíveis e reconhecimento profissional. Outros emigraram, sobretudo para o Reino Unido e a Suíça.

O presidente da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, alertou em 2024: “O SNS está a perder a sua força vital — os seus profissionais. E sem eles, não há sistema público que resista.

Privatização: Solução ou Ameaça?

A ideia de privatizar parcialmente o SNS divide a opinião pública. De um lado, os defensores argumentam que o modelo público é insustentável e precisa de novas formas de gestão e investimento privado. Do outro, os críticos temem que a privatização destrua o princípio da equidade e crie uma saúde a duas velocidades.

Os argumentos a favor

Os defensores da abertura ao setor privado — incluindo alguns economistas da saúde — apontam exemplos internacionais, como a Suécia e os Países Baixos, onde parcerias público-privadas permitiram reduzir tempos de espera e aumentar a eficiência.

Para o economista da Universidade Nova de Lisboa, Pedro Pita Barros, “a questão não é privatizar ou não, mas sim como integrar o privado num sistema que mantenha a missão pública.

Os argumentos contra

Do outro lado, sindicatos e associações de utentes alertam para o risco de transformar a saúde num negócio. “Quem lucra com a doença não pode ser o guardião do acesso à saúde”, afirmou recentemente a presidente do Movimento Nacional de Utentes, Ana Margarida Lopes.

Estudos da Organização Mundial da Saúde reforçam essa preocupação: sistemas fortemente privatizados tendem a aumentar as desigualdades e a limitar o acesso dos mais pobres a cuidados de qualidade.

O Papel Crescente dos Privados em Portugal

Nos últimos cinco anos, os grupos privados têm expandido a sua presença de forma acelerada. Multicare, CUF, Luz Saúde e Trofa Saúde são agora marcas familiares em quase todo o território nacional. Muitos profissionais que abandonaram o SNS integram hoje estas redes.

Esta expansão trouxe melhorias tecnológicas e um novo padrão de serviço ao cliente, mas também aumentou a dependência do Estado em relação ao setor privado, especialmente na realização de exames e cirurgias contratualizadas.

Uma fronteira cada vez mais ténue

Segundo o Relatório do Tribunal de Contas (2024), o Estado português gastou mais de 1,3 mil milhões de euros em serviços de saúde privados — um aumento de 40% face a 2020. A linha entre o público e o privado é, portanto, cada vez mais difusa.

O Que Está em Jogo

Mais do que uma disputa ideológica, a questão central é a sobrevivência de um modelo de saúde universal. Privatizar pode aliviar a pressão imediata, mas poderá também minar o princípio da solidariedade que sustenta o SNS desde a sua criação.

Portugal enfrenta uma escolha delicada: reformar profundamente o SNS para o tornar mais sustentável — ou assistir à sua fragmentação em múltiplos subsistemas concorrentes.

O que pensam os portugueses?

Um inquérito do ICS-ULisboa (2025) revela que 62% dos portugueses acreditam que o SNS “está em risco de colapso”, mas apenas 28% concordam com a privatização parcial. O sentimento geral é de desilusão, mas também de esperança de que “ainda é possível salvar o SNS”.

Como Recuperar o SNS: Três Caminhos Possíveis

1. Investir nos profissionais

Sem médicos e enfermeiros motivados, não há recuperação possível. A revisão das carreiras e dos salários é urgente para travar a fuga de talento.

2. Reforçar a gestão e a digitalização

A burocracia é um dos maiores entraves ao SNS. Apostar em plataformas digitais integradas e gestão hospitalar moderna é crucial para reduzir desperdícios e melhorar o atendimento.

3. Promover parcerias equilibradas

As parcerias público-privadas podem existir — desde que reguladas de forma transparente, com critérios de qualidade e equidade. O objetivo deve ser servir o cidadão, não o lucro.

Conclusão

O SNS Pode Ser Salvo Privatizar não deve ser o primeiro recurso, mas também não pode ser tabu. Portugal precisa de coragem política, visão de longo prazo e compromisso com o bem comum. O SNS pode renascer — se for tratado com a mesma dedicação que sempre exigiu aos seus profissionais.

O futuro do SNS não depende apenas de políticas, mas de uma escolha coletiva: queremos um sistema que cuida de todos ou um que serve apenas quem pode pagar?

FAQ — Perguntas Frequentes

O que é o SNS?

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é o sistema público de saúde português, criado em 1979, que garante acesso universal a cuidados médicos.

O SNS está a ser privatizado?

Não oficialmente. Contudo, o aumento de contratos com grupos privados e a fuga de profissionais têm levado a uma privatização indireta.

Qual é o principal desafio atual?

A falta de profissionais de saúde e a insustentabilidade financeira do sistema público são os maiores desafios a curto prazo.

Há soluções viáveis para o futuro do SNS?

Sim. Aposta em recursos humanos, melhor gestão, digitalização e parcerias equilibradas podem ajudar a restaurar a confiança e eficiência do sistema.

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