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| O SNS está a desmoronar — e o país pergunta-se: privatizar é a cura ou o fim da saúde pública? |
O colapso silencioso do Serviço Nacional de Saúde português está a tornar-se impossível de ignorar. Médicos exaustos, filas intermináveis nas urgências e uma fuga crescente de profissionais para o setor privado ou para o estrangeiro. A pergunta que paira no ar é dura, mas inevitável: poderá o SNS sobreviver como o conhecemos — ou a privatização parcial é o único caminho?
Nos últimos anos, o debate sobre o futuro do SNS deixou de ser apenas técnico. Tornou-se emocional, humano e profundamente político. Milhares de famílias sentem diariamente as falhas do sistema — consultas adiadas, cirurgias canceladas e profissionais em burnout. É neste contexto que cresce a influência dos hospitais e clínicas privadas, que ganham terreno à medida que o serviço público se fragiliza.
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O SNS à Beira do Limite
O Serviço Nacional de Saúde, criado em 1979, foi um dos maiores símbolos da democracia portuguesa. O seu princípio era simples: garantir acesso à saúde para todos, independentemente da condição económica. Mas, passadas quatro décadas, o sistema enfrenta uma das maiores crises da sua história.
Segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 1,6 milhões de portugueses não têm médico de família atribuído. E as listas de espera para uma consulta de especialidade ultrapassam, em alguns casos, os 12 meses. O resultado é um ciclo de frustração e abandono.
Os profissionais estão a desistir
Entre 2020 e 2024, mais de 2.000 médicos deixaram o SNS, segundo números divulgados pela Ordem dos Médicos. Muitos migraram para o setor privado, onde encontram melhores condições salariais, horários previsíveis e reconhecimento profissional. Outros emigraram, sobretudo para o Reino Unido e a Suíça.
O presidente da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, alertou em 2024: “O SNS está a perder a sua força vital — os seus profissionais. E sem eles, não há sistema público que resista.”
Privatização: Solução ou Ameaça?
A ideia de privatizar parcialmente o SNS divide a opinião pública. De um lado, os defensores argumentam que o modelo público é insustentável e precisa de novas formas de gestão e investimento privado. Do outro, os críticos temem que a privatização destrua o princípio da equidade e crie uma saúde a duas velocidades.
Os argumentos a favor
Os defensores da abertura ao setor privado — incluindo alguns economistas da saúde — apontam exemplos internacionais, como a Suécia e os Países Baixos, onde parcerias público-privadas permitiram reduzir tempos de espera e aumentar a eficiência.
Para o economista da Universidade Nova de Lisboa, Pedro Pita Barros, “a questão não é privatizar ou não, mas sim como integrar o privado num sistema que mantenha a missão pública.”
Os argumentos contra
Do outro lado, sindicatos e associações de utentes alertam para o risco de transformar a saúde num negócio. “Quem lucra com a doença não pode ser o guardião do acesso à saúde”, afirmou recentemente a presidente do Movimento Nacional de Utentes, Ana Margarida Lopes.
Estudos da Organização Mundial da Saúde reforçam essa preocupação: sistemas fortemente privatizados tendem a aumentar as desigualdades e a limitar o acesso dos mais pobres a cuidados de qualidade.
O Papel Crescente dos Privados em Portugal
Nos últimos cinco anos, os grupos privados têm expandido a sua presença de forma acelerada. Multicare, CUF, Luz Saúde e Trofa Saúde são agora marcas familiares em quase todo o território nacional. Muitos profissionais que abandonaram o SNS integram hoje estas redes.
Esta expansão trouxe melhorias tecnológicas e um novo padrão de serviço ao cliente, mas também aumentou a dependência do Estado em relação ao setor privado, especialmente na realização de exames e cirurgias contratualizadas.
Uma fronteira cada vez mais ténue
Segundo o Relatório do Tribunal de Contas (2024), o Estado português gastou mais de 1,3 mil milhões de euros em serviços de saúde privados — um aumento de 40% face a 2020. A linha entre o público e o privado é, portanto, cada vez mais difusa.
O Que Está em Jogo
Mais do que uma disputa ideológica, a questão central é a sobrevivência de um modelo de saúde universal. Privatizar pode aliviar a pressão imediata, mas poderá também minar o princípio da solidariedade que sustenta o SNS desde a sua criação.
Portugal enfrenta uma escolha delicada: reformar profundamente o SNS para o tornar mais sustentável — ou assistir à sua fragmentação em múltiplos subsistemas concorrentes.
O que pensam os portugueses?
Um inquérito do ICS-ULisboa (2025) revela que 62% dos portugueses acreditam que o SNS “está em risco de colapso”, mas apenas 28% concordam com a privatização parcial. O sentimento geral é de desilusão, mas também de esperança de que “ainda é possível salvar o SNS”.
Como Recuperar o SNS: Três Caminhos Possíveis
1. Investir nos profissionais
Sem médicos e enfermeiros motivados, não há recuperação possível. A revisão das carreiras e dos salários é urgente para travar a fuga de talento.
2. Reforçar a gestão e a digitalização
A burocracia é um dos maiores entraves ao SNS. Apostar em plataformas digitais integradas e gestão hospitalar moderna é crucial para reduzir desperdícios e melhorar o atendimento.
3. Promover parcerias equilibradas
As parcerias público-privadas podem existir — desde que reguladas de forma transparente, com critérios de qualidade e equidade. O objetivo deve ser servir o cidadão, não o lucro.
Conclusão
O futuro do SNS não depende apenas de políticas, mas de uma escolha coletiva: queremos um sistema que cuida de todos ou um que serve apenas quem pode pagar?
FAQ — Perguntas Frequentes
O que é o SNS?
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é o sistema público de saúde português, criado em 1979, que garante acesso universal a cuidados médicos.
O SNS está a ser privatizado?
Não oficialmente. Contudo, o aumento de contratos com grupos privados e a fuga de profissionais têm levado a uma privatização indireta.
Qual é o principal desafio atual?
A falta de profissionais de saúde e a insustentabilidade financeira do sistema público são os maiores desafios a curto prazo.
Há soluções viáveis para o futuro do SNS?
Sim. Aposta em recursos humanos, melhor gestão, digitalização e parcerias equilibradas podem ajudar a restaurar a confiança e eficiência do sistema.
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